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Minha mãe, Helena, conta uma história em que, quando ela era criança, ela e sua irmã Edwiges foram visitar a tia Marieta.
Café posto à mesa, café servido no copo. Ao ir beber seu café, minha mãe notou uma mosca misturada a ele. Envergonhada de dizer à tia que uma mosca tinha caído dentro do seu copo, ela bebeu café com mosca, sob um olhar de nojo da irmã Edwiges. Voltaram pra casa, com a minha tia Edwiges cheia de repugnância da minha mãe, mantendo distância dela e a xingando.
 
No meu copo de mingau de milheto, fui premiado com uma dose dupla de mosca. Diferentemente da minha mãe, sem a inocência infantil, pus de lado o copo e já me servi com mais mingau em outro copo.
 
Volto ao café com mosca. Hoje, tudo pode ser gourmet. Não me espantaria ver no cardápio de uma cafeteria o café com mosca apresentado como iguaria. Não me surpreenderia justamente porque na última colheita (segunda colheita de 2019) do meu café em Uganda, o meu melhor café, dentre treze diferentes tipos e segundo provadores internacionais, foi o que, justamente, foi contra todas as recomendadas boas práticas de pós-colheita, ficando, ao fim da longuíssima secagem e excessivas fermentações não controladas, com o pergaminho, que é naturalmente bege, totalmente preto, fedendo a podre.
 
Imagine só: de um café de pergaminho preto (e podre!), obtém-se grãos extremamente torrados (chegando à cor preta!), extraindo-se deles um líquido preto, que se harmoniza com moscas pretas.
Tudo tão indelicadamente feito que preenche o cardápio como um perfeito novo conceito da glamoscarização da xícara. 





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#foto#
quando: 02/03/2020
onde: Uganda, Kanungu, Nyakishenyi
por: Andalaquim
Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 07/03/2020
Alterado em 12/05/2020
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