Textos


DISCÍPULO DOIDO
 
o evangelho segundo o café
 
Meu pai, Paulinho Almeida, foi um profissional inovador.
 
Foi um dos pioneiros em fazer café descascado no Brasil. No ano de 2001, com seu café descascado e orgânico (cafeicultura orgânica foi outro pioneirismo dele), ele foi campeão do maior concurso de qualidade de café do mundo, com a incrível nota de 97,53 pontos, maior pontuação mundial até hoje. Isso abriu os olhos de muitos cafeicultores do país, que, já para a safra seguinte, compraram centenas de máquinas de descascar café fresco, seguindo o exemplo do campeão Paulinho.
 
Outra inovação do mestre foi construir terreiros suspensos e cobertos para a secagem de café. E, nisso, muitos também o seguiram.
 
Paulinho também foi um mago... um mago da colheita. Ele introduziu no Brasil a colheita seletiva de café, em que apenas os grãos maduros são colhidos.
 
Portanto, Paulinho foi um campeão, um mestre e um mago. Um engenheiro agrônomo notável e um cafeicultor diferenciado.
 
Em 2003, eu estava no primeiro período da faculdade de Agronomia em Lavras, no estado de Minas Gerais. Meu pai foi convidado para dar palestra no 6º Encontro Mineiro Sobre Produção Orgânica, em Congonhas, também em Minas Gerais. Meu pai dirigiu até Lavras, onde me juntei a ele na viagem, e fomos para Congonhas. Ele deu a palestra e, ao fim dela, abriu-se a sessão de perguntas. Eis que um questionamento o afrontou: “Paulinho, depois que o senhor começou a ensinar suas técnicas de produção de café especial e orgânico, muitos dos seus aprendizes se classificaram melhor do que o senhor em competições. O que está errado nisso?”. Ao que meu pai redargüiu: “Nada está errado. Meu caixão não tem gaveta. O que levamos conosco é o que fazemos de bom aos outros e como cuidamos de nós. E, para um professor, é grande a felicidade ao ver um aluno se saindo bem por causa de suas lições, mesmo que melhor até do que o próprio professor.”.
 
E eu tive o privilégio de, além de filho, ser aluno dele. Setenta e cinco por cento do que sei de cafeicultura aprendi com meu pai. Plantio, manejo da lavoura, colheita, processamento, secagem e armazenamento foram importantes lições que ele me ensinou, que, de tão valiosas, falta um adjetivo para qualificá-las. Mais do que importantes. Muito mais do que valiosas. Já o beneficiamento e o rebeneficiamento aprendi por outros meios. E tive e tenho a honra de rodar o leste da África levando o legado dele, com resultados tão bons quanto os colhidos por ele.     
 
 santa ceia, santa teia
 
Recentemente, tenho me arriscado numa inovação. Na cafeicultura, a mão-de-obra corresponde à maior parcela do custo de produção.
 
Para o lado de dentro da porteira, o café que produzo em Uganda tem apenas uma etapa mecanizada, que é o descascamento do grão fresco e maduro, a exemplo de duas inovações do renomado Paulinho.
 
Após o descascamento pela máquina, o meu café tem sempre um destino: as mesas suspensas de secagem, numa versão simplificada dos terreiros do Paulinho, para as quais o café pode ir diretamente após o descascamento ou depois da fermentação em tanques.
 
E é na etapa de secagem sobre as mesas que entra a inovação deste discípulo doido. Nessas mesas de secagem, o café era revolvido constantemente por mãos humanas. Comecei, então, uma experiência, que se mostrou bem sucedida. Aranhas têm mais membros do que humanos têm mãos. Aranhas têm um custo apenas de alimentação.
 
E foi em troca de comida que consegui adestrá-las para revolverem o café durante toda a etapa de secagem. Agora, são milhares de aranhas revolvendo milhões de grãos.
 
Uma conta maluca que encerra a parte do texto que é um conto louco.
 
Na verdade, encerra o texto todo, pois as aranhas me chamam para tratar delas. É assim entre elas e mim: construímos esta teia que nos liga: elas revolvem o café e eu lhes dou comida.






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#foto introdução#
quando: 10/10/2019
onde: Uganda, Kanungu, Nyamiyaga, Kingha Coffee Company
por: Andalaquim

#foto conclusão#

quando: 28/05/2020
onde: Uganda, Kanungu, Nyamiyaga, Kingha Coffee Company
por: Andalaquim
Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 16/02/2020
Alterado em 01/06/2020
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