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ERUPÇÃO DE ESTERCO
 
Na Tanzânia, eu participei de três projetos nos anos de 2010, 2011 e 2012. O primeiro projeto era de acompanhamento e orientação de estações de processamento de café. Peguei esse trem andando, mas imprimi um pouco da minha digital, colocando muito a minha mão nele. Por iniciativa minha, em cada grupo de processamento de café visitado no norte e no sul do país, passei a descascar com as mãos amostras secas de café em pergaminho para fazer uma análise física do café verde (produto comercial) junto ao grupo. Mostrava a eles os grãos defeituosos da amostra, comparando-os aos grãos bons, explicando o que os causava, como eles afetavam a qualidade da bebida, o quanto eles depreciavam o produto comercializado e como se podia evitá-los. Os outros dois projetos foram idealizados e tocados por mim.
 
Ao meu primeiro projeto próprio tive grande resistência do meu primeiro superior, no oeste da Tanzânia. O projeto era sobre o sistema vulcão de finalização de secagem de café. Um pouco antes da minha chegada à Tanzânia, tinha tido início a colheita de 2010. Fui a campo algumas vezes para me ambientar. A pedido do meu superior, falei nada sobre o sistema vulcão até segunda ordem. E a segunda ordem nunca veio. Na verdade, uma segunda ordem veio... arrasadora: alegando que eu tinha nada a agregar às visitas de campo, ele proibiu minhas atividades fora do escritório.
  
O convite inicial para o meu trabalho na África tinha sido para disseminar o método vulcão na Tanzânia. Mas em pouquíssimo tempo eu já estava pra lá de desanimado, no oeste do oriente sem erupção-tesão. Eu cogitava, inclusive, a minha volta ao Brasil bem antes da hora programada.
 
Nas poucas oportunidades que tive de visitar as estações de processamento de café no oeste da Tanzânia – eu viria a visitar inúmeras no norte e sul, quando, então, as análises físicas de amostras de café verde aconteciam –, notei os dois resíduos desse processamento não sendo aproveitados. Eram a casca do café, que eu chamo de “vida vermelha”, e a solução do descascamento, que eu chamo de “mucilágua”. Então, já desanimado com o vulcão, decidi focar na compostagem dos resíduos do processamento de café, uma forma de tratamento ambiental com excelente produto final para aproveitamento nas lavouras. Eu tinha aprendido compostagem com meu pai e, também, estudado-a na faculdade, sendo meu trabalho de conclusão de curso, inclusive, sobre esse tema. O monte estava montado.
 
Em agosto de 2010, fui para o norte da Tanzânia dar uma palestra no 1º  Let’s Talk Coffee Africa. Viajei três dias de carro. Na conferência, havia uma platéia mista de diferentes setores da cadeia produtiva de café, sendo, na sua maioria, produtores africanos e compradores internacionais. Embora desanimado com o tema, foi-me pedido para falar sobre o vulcão. Falei. Após a palestra, uma grande produtora de café daquela região tanzaniana me procurou, interessada em testar o método em sua fazenda.  
 
Ao visitar a fazenda dela, na etapa de processamento de café, vi o mesmo cenário dos outros lugares: resíduos amontoados e desperdiçados, usados depois de muito tempo de apodrecimento. Combinamos, então, que eu faria ali duas práticas experimentais: o vulcão e a compostagem.
 
Sem apoio no oeste, mudei-me, definitivamente, para o norte tanzaniano.
 
O experimento do vulcão deu-se da seguinte forma:
1. selecionamos um dos terreiros suspensos de secagem de café que continha, nele todo, o mesmo lote de café recém saído do processamento;
2. dividimos esse terreiro em duas partes iguais;
3. a primeira metade (metade-mesa) secou como de costume: do início ao fim nessa mesa suspensa;
4. a segunda metade (metade-vulcão) secou nesse terreiro suspenso até certo ponto de umidade dos grãos, quando, então, foi transferida para uma lona sobre o chão, sobre a qual o  café terminou de secar usando o sistema vulcão.
Experimento muito bem sucedido: a metade-vulcão teve uma qualidade de bebida melhor, com quase dois pontos a mais, do que a metade-mesa. Diferença muito significativa.
Tão significativa que o que se seguiu a isso? A construção dos primeiros terreiros de cimento daquela fazenda, para terminar de secar todos os lotes de café com o método vulcão. Nunca mais ensinei o vulcão na África. Dei-me por satisfeito com essa prova concreta.  
 
Algo concretamente disseminado foi o projeto de compostagem, tal qual a lava de uma erupção. Nos dias confinado no escritório no oeste da Tanzânia, escrevi, dentre outros materiais, um manual sobre compostagem e fiz um sumário dele numa cartilha. Monte montado anteriormente com os ingredientes para praticar a compostagem. Lava preparada agora com os livretos para ensiná-la.
 
Comecei fazendo compostagem experimentalmente, mecanicamente e em grande escala na fazenda que adotara o vulcão, usando trator, enxada rotativa, lâmina e uma pequena pá carregadeira. O resultado foi excelente. Todos os resíduos, antes largados à própria podridão, foram compostados e receberam tratamento com microorganismos eficazes coletados naquele local e cultivados. Os talhões do cafezal que receberam o composto enriquecido tiveram uma qualidade de bebida melhor e grãos maiores, dois fatores de agregação de valor ao produto comercial.  
 
Então, parti para uma escala simultaneamente menor e maior: tudo manual, em pequenas pilhas, com milhares de pequenos produtores rurais. Monte montado. Lava preparada. Hora da erupção! Comecei disseminando a compostagem nas comunidades da vizinhança dessa grande fazenda no norte da Tanzânia. Seguiram-se mais várias outras comunidades de outras localidades também do norte. Depois, fui para o extremo oposto do país com a mesma finalidade. Terminado o sul, fui para outro extremo, dessa vez ao oeste, naqueles mesmos lugares onde meu ex-superior impedira-me de trabalhar. Batizei esse projeto de “Caravana Compostagem”. E nele foram treinados, diretamente por mim, 5723 agricultores e 4204 agricultoras de 268 comunidades diferentes.
 
Em todos os lugares pelos quais passei na Tanzânia ninguém nunca conseguiu pronunciar meu nome como ele é: “André”. Eu era chamado de “Andrey”, “Andrew”, “Andres” e o mais comum e o meu favorito: “Andrea”. E ao saberem que eu era brasileiro, muitos me chamavam de “Max Macsimum”, em alusão a Márcio Máximo, o brasileiro que, naquela época, treinava a seleção masculina de futebol da Tanzânia. Em Uganda, essas variantes do meu nome se repetem. Mas aqui duas pessoas já pronunciaram “André”, além de “café”. Entretanto, o mais comum continua sendo “Andrea”.
 
Por todo esse trabalho com compostagem na Tanzânia, ganhei um apelido por lá, que tinha minhas duas facetas: juntava a rima do verso a um ingrediente pra terra: “Andrea Mbolea”, em que “mbolea” é “esterco” e “adubo” ao mesmo tempo. Portanto, “André Esterco-Adubo” passou a ser meu nome e sobrenome.
 
Minhas primeiras quatro noites em Buinde foram num chalé bem no limite exterior do parque nacional impenetrável, onde encontram-se os gorilas-de-montanhas. Disseram-me que, se eu acordasse antes das seis e tivesse sorte, eu talvez poderia ver os gorilas da minha varanda.
 
Dormi a primeira noite. Acordei a primeira madrugada antes das seis, com o barulho do chacoalhar dos arbustos e do coachar dos gorilas no bosque ao redor da minha casa, longes da minha varanda e em frente à minha porta. E como se dissesse “Bem-vindo, irmão esterco!”, um deles cagou uma linda merda no meu trilho. A merda e o meu caminho.

O turismo de observação de pássaros em Buinde, dada a sua diversidade, é quase equivalente ao turismo de observação dos gorilas. Sim, há poesia na melodia matutina de um pássaro. Eu que o diga. Eu que os ouça. Mas nas frescas fezes verdes da alvorada de um primata gigante há uma epopéia com romance.





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#foto#
quando: 12/02/2019
onde: Uganda, Kanungu, Buinde, hospedaria Casa do Gorila
por: Andalaquim
Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 02/01/2020
Alterado em 10/05/2020
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