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A PENA, O OVO, O NINHO... E O ANJO
 
Vinte e seis de dezembro é o aniversário do meu pai, com quem tive uma relação de aprendizados e conflitos, que, também, trouxeram lições positivas.
 
Meu pai era engenheiro agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura de Lavras em 1975. Eu sou engenheiro agrônomo formado pela mesma escola em 2009, então Universidade Federal de Lavras.
 
Meu pai foi um grande incentivador da minha primeira temporada na África, em 2010, que não teria acontecido se não fosse ele ter ganhado o prêmio de melhor café do Brasil, alçando-o a novos degraus nacionais e a inéditos degraus internacionais. Eu diria alçando-nos, pois eu somente fui convidado a trabalhar na África por causa do trabalho dele, que ele fazia na sua fazenda e na fazenda de clientes, e expunha em palestras por todo o Brasil e em diversos países das Américas do Sul e Central.
 
Paulinho foi um desbravador na cafeicultura orgânica e de bebida de qualidade. Nunca usou herbicidas nem pesticidas. Roçava o mato dos cafezais e, devido ao seu manejo ecológico-holístico, havia uma grande diversidade de macro e microorganismos, que, por sua vez, faziam o controle biológico de qualquer organismo que viesse a se desequilibrar populacionalmente e virar uma praga. Montou sua própria usina de compostagem, e fazia toneladas de composto usando recursos disponíveis na própria fazenda. E, no Brasil, foi pioneiro em colheita seletiva, aquela em que somente os frutos maduros são colhidos. Por essas razões, seu café poderia ser chamado de “café especial”. Não somente pela qualidade ímpar da bebida.
 
E por essas razões também, Paulinho era chamado, figurativamente, de “maluco”. Com a insígnia, seguia c’afé e a coragem. Tanto seguiu firme em seu propósito que a coroa lhe chegou. E, ao ser premiado como o melhor café do Brasil – melhor do mundo até hoje, com a maior nota histórica mundial: 97,53 –, muitos dos que o chamavam de “maluco” passaram a chamá-lo para consultorias.
 
E no mesmo concurso de café do ano seguinte, lá estava Paulinho entre os cinco primeiros colocados, mas, orgulhosamente, com quatro prêmios. Ele ficara entre os cinco melhores, chamados de “cafés presidenciais”, e outros três, dentre esses cinco, eram clientes do “maluco”.
 
Em 2010, por duas vezes pensei em desistir do meu trabalho na Tanzânia. A primeira, quando tive a primeira malária e fiquei muitíssimo mal. A segunda, quando um colega de trabalho, um senhor também agrônomo, mas num cargo superior ao meu, me impedia de ir a campo, e eu ficava o tempo todo no escritório escrevendo cartilhas e manuais de boas práticas de cultivo, colheita, processamento e secagem de café, pensando que, talvez, eles nunca seriam usados. Era quando eu recebia mensagens de e-mail diárias do meu pai com apenas uma frase, muitas vezes de uma palavra: “Tenha fé!”, “Tenha força!”, “Siga!”, “Prossiga!”, “Não desista!”, “Persista!” etc.
 
A ZalaZ, empreendimento de cafés especiais da Fazenda Santa Terezinha e de bebidas artesanais singulares, estabelecida nessa mesma fazenda que consagrou Paulinho Almeida, o homenageia sempre com um microlote de café que tem algo de maluco, mas que, mais do que isso, tem muito de magia, e leva o nome e a foto de “O Mago”.
 
Minha trajetória na África deu cria, e foi além do voluntariado programado de sete meses. Fiquei na Tanzânia em 2010, 2011 e 2012. Em 2011, passei também pela Etiópia, dando consultoria na Floresta de Harenna, uma das quais em cujo bosque o café é nativo. Foi motivo de orgulho pra mim. E de muito orgulho para o meu pai: lá estava o filho dele, no berço mundial do café, disseminando as técnicas que o fizeram produzir o melhor café do mundo.
 
Foi com O Maluco e com O Mago que aprendi tudo, absolutamente tudo, de cafeicultura. Maluquices no manejo da lavoura e magias no processamento e secagem do café. Atualmente, estou em Uganda. E o café que produzo aqui foi considerado o melhor café do país nas duas últimas safras. É ugand... com dna(m)agu.
 
A vida costura coisas de trás pra frente e de frente pra trás. Meu primeiro quarto na África foi num hotel, cuja reserva estava no nome da empresa e não no meu, portanto sequer sabiam meu nome. Na parede desse quarto havia um só quadro, com a imagem antiga da fachada de uma alfaiataria chamada “Almeida”. Eu sou Almeida pelo lado do meu pai. Entendi o recado.
 
Assim como entendo que o Canarinho – apelido oficial do Paulinho – era, na verdade, um anjo, que deixou uma pena no ninho para ajudar o filho passarinho a voar.





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quando: 02/02/2017
onde: Brasil, Minas Gerais, Paraisópolis, Jacintos, Fazenda Santa Terezinha, cafezal
por: Andalaquim
Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 26/12/2019
Alterado em 10/05/2020
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