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NO CARRO DO GOVERNADOR
DO CARRO DO GOVERNADOR

 
Saímos da cidade de Kigoma de madrugada, rumo à vila de Muhange, no distrito de Kibondo. Para percorrer os trezentos quilômetros de estrada de terra – naquela ocasião, não havia asfalto em trecho algum desse caminho; hoje, sei que já se encontram asfaltadas partes dessa rota –, levamos, exatamente, oito horas, não contando o tempo despendido na única parada.
 
Apenas uma parada programada, na cidade de Kibondo, capital do distrito de mesmo nome, após sete horas de viagem. Essa parada tinha duas finalidades: primeiro, tomar café-da-manhã, e segundo, encontrar com o governador do distrito.
 
Basicamente, era um caminho muito longo em estrada muito ruim. O movimento na estrada era próximo de zero. Raramente, cruzávamos com carro ou caminhonete. Poucas vezes, com ônibus. E muitas vezes, com caminhões bitrens da Coca-Cola. Algo surpreendente a cocalonização. Em vilas remotas, que sempre têm um dia semanal fixo de feira, com produtos expostos sobre o chão, pequenas barracas de madeira vendendo Coca-Cola, ao preço, equivalente, de 50 centavos de real a garrafa. Enquanto a feira se dá em exposição no chão, a simples barraquinha de madeira na vertical vendendo Coca-Cola é uma glamorização, digna de experiência. Eu sei o mal que refrigerante faz, mas aprendi a admirar a Coca-Cola. Refrigerante de respeito, que, desde então, eu passei a tomar não apenas bebendo-o, e sim apreciando-o.
 
Era necessária uma reunião com o governador do distrito, pois precisávamos explicar-lhe o propósito da visita à vila de Muhange, e, então, receber ou não a autorização dele para o trabalho.
 
Na Tanzânia, o mesmo partido político está no poder desde a independência do país em 1961. E o presidente é quem nomeia os chefes do executivo abaixo dele. Nesse contexto, as funções partidárias e as funções governamentais estão tão entranhadas e misturadas que não se vê a divisão entre partido e governo. Por exemplo, os veículos oficiais do governo, ao invés de carregarem bandeiras do país, carregam bandeiras do partido político que está no poder.
 
Após explicar ao governador de Kibondo a razão da visita à vila de Muhange, ela foi autorizada, com uma surpresa: o governador quis ir conosco, pois o tema do treinamento o interessava.
Formou-se, então, uma comitiva de quatro carros. E o governador me convidou para eu ir no carro dele, um robusto e pomposo carro oficial. Essa região não é segura, com algumas milícias na fronteira. Portanto, à frente da comitiva, um carro de segurança com soldados armados, seguido do carro da nossa empresa, seguido, então, do carro do governador, no qual eu estava, que vinha escoltado por um último carro também com militares armados.
 
A região de Kigoma, composta pelos distritos de Kigoma, Kasulu e Kibondo (trabalhei nos três), é o principal foco de resistência ao partido tanzaniano que está no poder. A maioria de sua população é afinada com os partidos de oposição, principalmente um partido cujo símbolo são os dedos indicador e médio levantados: o V da Vitória, o Paz & Amor; mas que, para eles, significa “Povo & Poder”.  
 
Era a segunda semana de junho de 2010. Não fazia nem um mês que eu tinha chegado à Tanzânia. Eu entendia absolutamente nada do contexto político local, sequer o que expliquei nos parágrafos anteriores.
Lá estava eu no carro oficial do governador do distrito, com suas muitas pequenas bandeiras do partido governante no exterior do carro, indicando o veículo governamental partidário. Eis que toda vez que cruzava com pessoas a pé, empoeiradas, ou na traseira de caminhões, empoleiradas, elas acenavam com dedos indicadores e médios pra cima. Com a janela aberta, eu não deixei um aceno sem resposta. Durante uma hora, tempo da viagem entre a cidade de Kibondo e a vila de Muhange, de dentro do carro oficial do (partido) governante, eu respondi, incansavelmente, a todos os acenos dos opositores na mesma forma em que vinham, com o V da Vitória.
 
E não foi da mesma forma que eu fui à vila, que eu voltei. O governador não quis que eu voltasse no carro dele. Paciência... e Paz & Amor.





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#foto#
quando: 10/06/2010
onde: Tanzânia, Kigoma, Kibondo, escritório do governador
por: Andrew Kalema
Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 24/12/2019
Alterado em 10/05/2020
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