Textos


CABEÇA DE ÁGUA. CABEÇA DE LENHA
 
Carrega-se tudo sobre a cabeça: balde com água, balde sem água, lenha grande, lenha pequena, bolsa com coisa, bolsa sem coisa, cesto cheio, cesto vazio etc. Para quem vai à escola, nada de mochila. Também sobre a cabeça, uma sacola plástica com os cadernos e dois talheres de escrever. Sim, chamei a caneta e o lápis de “talheres de escrever”, pois com eles se alimenta muita coisa. E a régua é o terceiro talher. Portanto, garfo, faca e colher.
 
Quando eu vejo diariamente, sem falhar um dia sequer, crianças, com seus três anos de idade em diante, sendo mulas ambulantes de sua própria sobrevivência, carregando, principalmente, lenha e água, eu não sinto pena; o que eu sinto é raiva.
 
Não nego. Não gosto nem nunca gostei de criança. Não gostei até agora e acho que nunca vou gostar. Esforço-me (eu usaria a expressão “dou meu sangue”, mas não o dou) para que meu sangue não se perpetue. Não tenho a mínima vontade de ter filho. Dou-me por satisfeito com o meu casalzinho: a rima e o trocadilho. E eu descobri que, pra mim, ser sozinho é uma das melhores companhias que tenho. Nada de convencimento. E sim doses de autoconhecimento. Por essas duas razões, não penso em me relacionar com alguém. Aqui, mais do que qualquer outro lugar em que vivi, todo mundo já começa uma relação pensando em ter filho. E mesmo sem criança, qualquer parceira aqui atrapalharia a vida de sacerdote (sem fé) e soldado (sem arma) que levo. Não nasci pra ser pai. O meu sangue apenas nos mosquitos, que, como presente de Dia dos Pais, me trazem malária.
 
A pena que eu não sinto tem nada a ver com eu não gostar de criança. Eu sinto é muita raiva dos pais.
Uganda tem a terceira maior taxa de natalidade do mundo. É muita gente nascendo. Na vila onde eu moro, por exemplo, tem uma maternidade, que atende essa e mais algumas vilas. A média é de cem partos por mês. Tem até um alojamento para as mulheres que estão prestes a parir. Passo por ele duas vezes por dia, e está sempre lotado. Tanto que estão construindo mais um alojamento, pois a demanda só aumenta.
Puta que pariu! Sobre as cabeças eu vejo o que eles carregam. Mas e dentro delas? O que esses pais têm na cabeça para ter tanto filho assim em condições tão pobres? No mínimo, cinco. Chegando até a oito ou mais crianças por lar.
 
Cada vez mais gente parindo, cada vez mais gente nascendo. Pra quê? Pra carregar nas costas uma terra alheia rica. E pra carregar na cabeça um chão próprio miserável.





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quando: 29/09/2019
onde: Uganda, Kanungu
por: Andalaquim
Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 20/12/2019
Alterado em 10/05/2020
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