Textos


UM MOSQUITEIRO SOBRE O PLANETA INTEIRO
 
Uma coisa me faz duvidar da existência de um Deus criador supremo e perfeito: os pernilongos. Se existe um Deus que criou tudo perfeitamente, não é possível que o pernilongo faça parte dessa criação. Tem a estória de um casal de cada espécie sendo salvos de um dilúvio numa arca. Por que o casal de sapos não sapecou com suas línguas o casal de pernilongos?
 
Uma coisa boa os pernilongos me trouxeram: inspiração para escrever o poema “Batalhongando”, um dos meus favoritos.
 
É comum pernilongos nos deixarem “cegos de raiva” por causa de seus zumbidos. Eu já fiquei foi quase surdo de verdade por causa de um pernilongo. Um acidente absurdamente estúpido. Um cotonete, um pernilongo, dois braços, duas mãos e um ombro. 
 
Um ano antes do acidente eu tinha parado de usar cotonetes. Fui ao otorrinolaringologista queixando-me de uma coceira no ouvido que vinha e ia, vinha e ia, vinha e ia, e que já durava de dois a três anos. Meu ouvido parecia um formigueiro nesses momentos da coceira. A causa do problema: o uso constante de cotonetes, que eu usava cada vez mais a medida que a coceira voltava com mais intensidade e freqüência. Portanto, seguindo a recomendação médica, parei, definitivamente, de usá-los além do pavilhão auditivo, limitando-me, apenas, a limpar ali por fora. E a coceira realmente acabou. Tanto acabou que nem lembro se ela era no ouvido esquerdo ou direito. E tanto parei de usá-los que parei de carregá-los para as minhas novas moradas, mesmo sabendo que nas regiões remotas do centro-leste africano os cotonetes disponíveis são de péssima qualidade, com pouco algodão e hastes tão flexíveis que se vergam num leve contato.
 
No dia 12 de janeiro de 2012, eu comprei sete unidades de cotonete. Nem cinco nem dez; sete! Sim: aqui, cotonetes podem ser comprados por unidades nas inúmeras lojinhas em que o cliente fica para fora da janela com grade – nem é balcão – e o vendedor fica lá dentro.
__Papel higiênico também se pode comprar por metro ou por tiras picotadas?
__Não! Papel higiênico só por palmo, quer dizer, palma. (Entenda com isso que, aqui, a maioria limpa a bunda com a mão. Com a mão esquerda, porque a direita é usada como talher na refeição.)

No entanto, eu comprara aqueles sete cotonetes não para usá-los no ouvido, mas sim para a limpeza minimalista do meu computador.
 
Sobraram três. Se eu soubesse o que estaria por vir, teria comprado somente quatro ou usado os sete na limpeza do computador.
Nove e meia da noite: enquanto espero a água chegar em casa, o que se dá lá pelas vinte e três horas, para poder tomar mais um banho de balde/caneca, decido limpar os ouvidos com os cotonetes restantes, indo além do pavilhão auditivo e aquém da orientação médica.
Se num quarto amplo um pernilongo voando já incomoda, imagine num banheiro minúsculo, com toda aquela acústica típica desse cômodo. Enquanto limpo meu ouvido esquerdo, um pernilongo sobrevoa a minha careca, reluzente aeroporto de mosquito. Permissão para pouso? Não! E lanço as duas mãos, esticando totalmente os braços, ao encontro fatal dele. Não sei se foi duplamente fatal, pois não sei se o matei. Foi fatal pra mim, porque havia um detalhe
 um detalhe de hastes levemente azuis e pontinhas brancas de algodão  ainda anexado ao meu ouvido. Braços rapidamente esticados ao máximo acima da cabeça, cotonete no ouvido, ombro fortemente no cotonete. Está consumado um acidente absurdamente estúpido.
Sorte, então, que as hastes são tão flexíveis que se vergam a um leve contato. Mas bem que poderiam ter mais algodão.
Se o mosquito morreu, ele não foi ao chão antes de mim, que caí vomitando de dor. Vinha sangue, vinha cera e não vinha som.
 
Desde então, não recuperei cem por cento a audição nem superei o trauma com cotonetes, mas aumentei, infinitamente, o meu ódio por pernilongos.
 
E com o orçamento daquela lendária arca, daria pra fazer um mosquiteiro cobrindo o planeta inteiro.





/-\|\||)/-\|_/-\(,)|_|||\/|




__________
#foto#
quando: 17/12/2019
onde: Uganda, Kanungu, Buinde, casa do autor
por: Andalaquim
Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 18/12/2019
Alterado em 10/05/2020
Copyright © 2019. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários