Textos


A LEI DO CULTIVO VIVO. VIVO A LEI DO CULTIVO
 
Em 18 de novembro de 2011, eu confesso que chorei à noite. Chorei de alegria e emoção, as mesmas com que escrevo esse texto. Sentimentos que começaram tão logo o Seu Mushi e sua esposa vieram até a mim e disseram: “Estamos fazendo compostagem exatamente agora.”.
 
Setembro de 2010. Concomitantemente ao meu trabalho de extensão rural em diversos grupos de processamento de café, começo a trabalhar numa grande fazenda de café na Tanzânia, implementando nela três técnicas: 1. compostagem Indore; 2. coleta, cultivo e uso de microorganismos eficazes; e 3. sistema vulcão de término de secagem de café. Essa grande fazenda é rodeada por dezenas de vilas. Começo, então, um trabalho voluntário, lecionando aos sábados (cada sábado numa vila diferente) o treinamento “Teoria da Adubação Orgânica e Prática de Compostagem Indore”.  
 
Seu Mushi e sua esposa foram uma das famílias produtoras rurais que atenderam ao treinamento no dia 25 de novembro de 2010. Lembro-me muito bem de Seu Mushi nessa ocasião, incorporando, perfeitamente, o espírito da atividade: participando ativamente, anotando tudo durante a aula teórica e trabalhando do começo ao fim na aula prática.
 
No dia 16 de dezembro de 2010, em uma das visitas de acompanhamento nas diversas vilas onde ocorreram os treinamentos, fui à casa do Seu Mushi. Alegria a minha ao ver que todo aquele entusiasmo em aprender sobre adubação orgânica – ele não parou de anotar durante a parte teórica e não parou de trabalhar durante a parte prática – não havia se perdido. Pelo contrário: tinha dado um passo adiante, que foi fazer a lição de casa, com, naquela ocasião, quatro pilhas de compostagem já construídas.
 
Passados alguns meses, no dia 15 de março de 2011, fiz a segunda rodada de visitas de acompanhamento dos treinamentos de adubação orgânica que tinham acontecido no último trimestre do ano anterior. E, dessa vez – mais do que a primeira –, a família Mushi me surpreendeu: naquele dia, eles tinham nove pilhas em processo de compostagem ou já prontas, além de terem me contado que já tinham usado na lavoura mais outras seis.
 
Chego ao dia 18 de novembro de 2011 do início desse texto. Seu Mushi não sabia que eu o visitaria. Nem eu, pois isso não estava programado. Era, na verdade, um dia de visitas aos grupos de processamento de café, acompanhando e instruindo-os nos cuidados pós-colheita. Em um desses grupos, estávamos perto da casa do Seu Mushi. Tempo, então, para uma passadinha por lá, rever um grande entusiasta dos nossos treinamentos e que tinha se mostrado, na última visita, um real novo praticamente de adubação orgânica. A frase com que ele me recebeu mostrou que a prática e o entusiasmo continuavam: “Sejam bem-vindos, meus queridos! Estamos fazendo compostagem exatamente agora.”. Lá estavam quatro pilhas de compostagem: duas construídas alguns dias antes, uma construída pouco antes de chegarmos e outra sendo construída naquela hora, com direito a um depoimento, que, diante da compostagem, soou como composição:
“Antes, eu usava na lavoura, diariamente, esterco totalmente fresco. As plantas não respondiam como agora. Pelo contrário, pareciam doentes. E agora eu sei fazer meu próprio adubo com o que eu tenho disponível aqui na minha propriedade. Não gasto dinheiro. E a minha lavoura nunca esteve tão bonita, está bem melhor do que antes. Nunca vi tantas pequenas raízes de café assim. E tenho composto suficiente para nutrir a minha lavoura o ano todo. Não uso mais adubo comprado. Meus vizinhos me visitam e ficam surpresos com o estado da minha lavoura e me perguntam como estou tratando-a. Falo pra eles sobre a compostagem. Se quiserem, eu os ensino. E os que estão fazendo dizem que suas lavouras também estão respondendo muito bem. E muito me orgulho de não ter falhado na construção e manutenção de nenhuma pilha, pois todas elas ficaram prontas no prazo certo e com um cheiro muito bom. E olha que já fiz umas trinta.”. 
 
Eu voltaria ao Brasil em 2012. Então, a partir daquela data – novembro de 2011 –, meu trabalho se concentrou em duas frentes, ambas envolvendo o Seu Mushi. A primeira frente foi montar na propriedade de Seu Mushi um sistema de produção de biofertilizante e outro de coleta, cultivo e uso de microorganismos eficazes, para ser um centro de produção e distribuição de adubos ecológicos para ele e para a vizinhança. E, a partir daquele dia, disse-me ele em 2015, a vila de Ngumeni nunca mais foi a mesma. A segunda frente foi levar o Seu Mushi em todos os treinamentos comigo para dar o depoimento dele de aluno praticante e também ajudar na explicação e incentivo de como implementar as técnicas ensinadas. E assim trabalhamos juntos em dezenas de comunidades: eu, um kijana-jovem de 27 anos, e ele, um bwana-senhor de 72 anos.   
 
Quando eu estava para deixar a Tanzânia em 2012, eu escrevi um livro sobre manejo ecológico do solo, e decidi dar de presente ao Seu Mushi. Nesse livro, um importante tópico era sobre cobertura de solo, deixando crescer as plantas que surgem espontaneamente e, depois, roçá-las. E nunca usar herbicidas. Nessa época, Seu Mushi usava herbicida, e essa era a única coisa que realmente ainda me incomodava no manejo que ele praticava. Então, ele e eu fizemos juntos uma roçada, com uma ferramenta manual, em todo o cafezal dele. Ao final do dia de trabalho, ele me confessou: “Nunca mais usarei herbicida!”.      
 
Também em 2012, eu sugeri ao Seu Mushi:
__O espaçamento entre plantas da sua lavoura é bem largo, o que se usa quando o manejo da lavoura é pobre. Agora, o senhor tem adubo suficiente para nutrir toda sua lavoura de café. Então, eu o aconselho a plantar mais um cafeeiro entre dois já existentes na mesma linha. Também por causa da sua fábrica própria de adubo, dá até para otimizar o uso da área com mais uma lavoura: plantar bananeiras na mesma área do cafezal, tendo, assim, duas lavouras em um mesmo espaço, da seguinte forma: plantar as bananeiras a cada cinco metros em uma entrelinha do cafezal, pular duas entrelinhas e repetir o plantio na entrelinha seguinte.
Foi então quando deixei a Tanzânia.
 
Voltei em 2015 para a Tanzânia. E logo na primeira semana dessa nova temporada, fui visitar o Seu Mushi.
Ele continuava com as técnicas de compostagem, biofertilizante e microorganismos eficazes. Nas entrelinhas, além do mato roçado, agora também havia bananeiras. Os cafeeiros super enfolhados e sem sinal algum de deficiência mineral, carregados de frutos em fase de enchimento dos grãos. Uma lavoura saudável e produtiva... e exemplar. E os vãos entre dois cafeeiros na mesma linha agora tinham mais um pé de café. 
Seu Mushi tinha se tornado um professor nas redondezas. Ele foi um parceiro fiel. Em 2012, no meu último dia na Tanzânia, deixei com ele centenas de cartilhas impressas e encadernadas. E ele virou, voluntariamente, multiplicador do conteúdo. E sabe aquela fazenda em cuja redondeza estavam as dezenas de vilas onde me voluntariei, incluindo a vila de Ngumeni? “Devido à sua tão boa performance e amor no manejo de sua lavoura e no ensino de outros agricultores” (palavras da proprietária alemã), Seu Mushi foi quem me substituiu no gerenciamento das atividades de adubação orgânica. Aos 72 anos, ele teve seu primeiro emprego formal.    
Mas as gratas surpresas continuam: por muitos motivos – 1. fazendo seus próprios adubos ao invés de comprá-los; 2. roçando o mato ao invés de usar produtos químicos comprados; 3. aumentando a produtividade pelo novo manejo da lavoura; 4. dobrando a produção com os cafeeiros extras plantados nos vãos; 5. vendendo bananas de sua lavoura consorciada –, Seu Mushi conseguiu economizar muito dinheiro e ter muito mais lucro na mesma área. E também passou a ter seu salário mensal trabalhando na grande fazenda. Com isso, Seu Mushi: 1. reformou a construção onde criava caprinos; 2. construiu caixas para apicultura e as espalhou pela propriedade (tornou-se apicultor); 3. construiu um local para criação de coelhos (tornou-se cunicultor); 4. construiu um pequeno tanque para criação de peixes (tornou-se psicultor); e 5. conseguiu pagar os estudos de duas filhas no curso de Direito.

É a lei do cultivo vivo, que mudou a vida... minha.





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o quê: tatuagem do autor
quando: 20/12/2018
onde: Brasil, Minas Gerais, Itajubá
por: Chris Tattoo
Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 16/12/2019
Alterado em 10/05/2020
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