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O VELHO MUÇULMANO, O ETERNO REI DO FUTEBOL E EU
 
Aqui, homem tem o hábito de andar de mão dada com outro homem. Mas não comigo, porque eu sou muito macho. É cada marmanjo de mão dada com outro marmanjo que eu ando com as mãos nos bolsos pra não correr perigo. Às vezes, nem é de mãos dadas, é só de dedos mindinhos dados – dedinhos dadinhos, que delicadinhos. No entanto, se vi homem de mão dada com mulher mais de três vezes, é muito.
           
Homem de vestido é comum aqui também. Na verdade, não é bem um vestido. A população se divide em quase metade cristã, quase metade islâmica e o restante em várias outras crenças. E os homens muçulmanos usam muito aquela roupa que vai do pescoço ao tornozelo num só pedaço de pano de somente uma cor. É um vestido sem os cortes femininos. Chama-se jalabiya. No início da minha vida na África, quando aconteceu o que relatarei adiante, essa vestimenta me parecia muito estranha. Por isso eu a encarava pejorativamente como um vestido. Hoje não. Até sinto vontade de vestir um. Mas escreverei adiante com a visão que eu tinha quando o fato a ser relatado aconteceu.  
           
Junho de 2010. Minha terceira semana na Tanzânia. Primeiro final de semana em Kigoma, na região oeste. Eu voltava pra casa após o almoço. Na rua, só havia dois movimentos: eu caminhando num sentido e um senhor caminhando no outro sentido. Logo logo cruzaríamos. Fomos ficando cada vez mais próximos e eu me preparei para saudá-lo em suaíle, afinal eu queria colocar em prática um pouco do pouco que eu já tinha aprendido sobre esse idioma.
           
Porém, antes mesmo de eu expor o meu tão pensado e preparado “Habari ya mchana” [“Boa tarde”], ele me saudou, estendendo-me a mão:
__ Good afternoon! [Boa tarde!]
__ Good afternoon!
 
Soltei a minha mão da dele, afinal, na minha cultura, saudou-soltou já é suficiente. Entretanto, ele a pegou de volta e continuou:
__ How are you? [Como você está?]
__ I’m fine. And you? [Eu estou bem. E você?]
__ I’m fine also. [Eu estou bem também.]
 
Soltei novamente a minha mão da dele. E, neste momento, eu já me preparava para continuar o meu caminho, pois pensei que a conversa tinha chegado ao fim, porque se a maioria dos jovens não consegue ir além disso no inglês, deduzi que aquele senhor de barba longa e branca também não iria. Então, finalmente, o meu “kidogo Kiswahili” [“pouco suaíle”] viria à tona com um “kwaheri” [“tchau”]. Porém, ele, de novo, não deixou, pegando, mais uma vez, a minha mão e, agora, entrelaçando-a na dele. Entendi isso como “Não a solte mais!, ao que respondi em pensamento: “Tudo bem. Desculpe-me. Mas, por favor, olha lá, hein!”. 
           
Quando caminhávamos cada um num sentido, eu sabia que logo logo cruzaríamos. Contudo, não esperava que logo logo cruzaríamos as mãos.
           
Simultaneamente a esses meus pensamentos, ele me surpreendeu com o seu inglês ao dar mais um passo na conversa:
__ Where are you from, my friend? [De onde você é, meu amigo?]
           
De mãos entrelaçadas e chamando-me de “my friend”, pensei: “Já somos íntimos.”. Para evitar avançar nesse pensamento, tratei logo de lhe responder:
__ I’m from Brazil. [Eu sou do Brasil.]
 
Foi ele que, dessa vez, ficou surpreso:
__ Oh, Brazil, Brazil! Pila! Pila!
 
Novamente, foi a minha vez de ficar surpreso, diante da reação entusiasmada que ele teve. Surpreso e confuso ao mesmo tempo, pois não entendi o que era “Pila! Pila!”. Deduzi que fosse alguma expressão em suaíle, pois, por exemplo, “devagar” é “polepole”, “pimenta” é “pilipili” e “motocicleta” é “pikipiki”.


__ “Pila! Pila!” – sorry, I didn’t understand, my friend. [“Pila! Pila!” – desculpe-me, eu não entendi, meu amigo.]
           
“My friend” – entrei no clima de intimidade.
 
__ Pila, Pila: soccer, soccer. [Pila, Pila: futebol, futebol.]
           
Se o “Pila! Pila!” nada tinha a ver com suaíle, pelo menos a lógica se manteve, que é a repetição formando termos ou, nesse caso, expressões: polepole, pilipili, pikipiki, Pila, Pila e soccer, soccer.
 
__ Ah, Pelé!
__ Yes, yes! Pile! Pile!
 
Diante da animação dele, decidi dar mais dedos de prosa – isso figurativamente, porque, na realidade, os dedos já estavam dados na prosa. Comecei a contar-lhe o pouco que sabia da biografia pós-jogador de Pelé: namorou uma famosa apresentadora de televisão; foi ministro dos esportes; arriscou até de cantor gravando um disco; igualmente ao pai, seu filho jogou no Santos, mas, ao contrário do pai goleador, o filho foi goleiro.
           
O sorriso no rosto daquele senhor com essas informações era maravilhoso.   
           
Xi, de mãos entrelaçadas, “my friend” pra lá, “my friend” pra cá e, agora, achando lindo o sorriso – essa história estava indo longe demais. 
           
E por falar em ir longe demais, minha casa não era distante de onde estávamos. No entanto, eu queria chegar logo a ela, pois uma dor de barriga começava a aparecer. Digestão boa a minha – eu tinha acabado de sair do almoço. Ou será que era dor de barriga de primeiro encontro?
           
Eu precisava ir pra casa. Entretanto, não queria cortar o encanto daquela conversa dizendo simplesmente “My friend, I need to go.” [“Meu amigo, eu preciso ir.”]. Foi então que, parecendo ler meus pensamentos (xi, de mãos entrelaçadas, “my friend” pra lá, “my friend” pra cá, sorriso lindo, conversa encantada e, agora, leitura de pensamentos – essa história já estava longe demais), ele disse:
__ Meu amigo, eu posso estar tomando o seu tempo. Seja bem-vindo à Tanzânia. Seja bem-vindo a Kigoma.
__ Imagine, meu amigo; não está tomando o meu tempo.
 
A dor de barriga aumentando, o tempo passando e dentro de mim um tique-taque que era de uma bomba-relógio. E eu conseguindo ser educado justamente sobre o tempo, mas torcendo pro intestino não me desapontar na educação.
 
__ Obrigado pelos votos de boas-vindas. Satisfação conhecê-lo.
__ A satisfação foi toda minha.
           
E me indicando um ponto um pouco mais adiante, completou:       
__ Vou voltar no meu caminho e acompanhá-lo até ali.
        
Estávamos mão direita com mão direita, embora pra mim isso não estivesse muito direito. Então, ele soltou a minha mão direita e, com a mesma mão direita dele, pegou a minha mão esquerda e saímos caminhando.
 
E nesse pouco de caminho, falei um pouco mais de Pelé. Disse a ele que, sempre que eu viajava da minha cidade natal para a cidade onde estudei e vice-versa, passava ao lado da estátua de Pelé às margens da cidade onde ele tinha nascido. 
 
Durante toda a nossa conversa, ele fazia referência à sua cor de pele ser a mesma cor de pele de Pelé. E por falar em pele, lembrei-me de roupa. E para aumentar o vínculo entre aquele senhor e Pelé, citei que Pelé gostava de se vestir quase que como ele, com calça e camisa de mesma cor, praticamente sem cortes.
           
Tentei reforçar a ligação entre aquele senhor e Pelé. Todavia, quem visse a cena naquele momento jamais imaginaria essa ligação. Suporia, sim, uma outra, afinal lá estava eu, pela rua tranqüila numa tarde de domingo, andando de mão dada com um senhor de “vestido”. E confesso: eu mesmo queria ver essa cena de outro ângulo para rir, ainda mais, de mim mesmo. 
           
Aqui, homem tem o hábito de andar de mão dada com outro homem. E, dessa vez, até comigo, porque eu sou macho até de mão dada com outro macho. 





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#foto#
o quê: anúncio de uma loja de óculos
quando: 15/02/2012
onde: Tanzânia, Kilimanjaro, Moshi Urbano
por: Andalaquim
Andalaquim
Enviado por Andalaquim em 14/12/2019
Alterado em 10/05/2020
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